Iniciamos citando uma passagem do romance :"A tenda dos milagres" de Jorge Amado, que, pela voz do protagonista Pedro Arcanjo cognominado Obitokô Ojuobá - os olhos de Xangô, diz:
Sei de ciência certa que todo sobrenatural não existe, resulta do sentimento e não da razão, nasce quase sempre do medo. (...) O homem antigo ainda vive em mim, além da minha vontade, pois eu o fui por muito tempo (...) É fácil ou é difícil conciliar teoria e vida, o que se aprende nos livros e a vida a cada instante? (AMADO, 1987, p.187) Esta, parece-nos, é a síntese da indagação humana sobre o sagrado, o questionamento da possibilidade de um outro espaço vivencial que, amparado pelos mitos clássicos, repete-se a cada momento e a cada cultura. Jung reconhecia os mitos como percepção do simbólico que levaria o homem das trevas para a luz como imagens e fantasias retiradas da consciência, reproduzidas pelo inconsciente coletivo e ali ficando como marcos referenciais das raízes arquetípicas. Através desses símbolos podemos pensar na formação, identidade e cultura de um povo.
Junito Brandão, em seus estudos clássicos, abre a perspectiva de associarmos a formação étnico-cultural brasileira com as matrizes da miscigenação européia, africana e indígena à mitologia grega, como os primórdios das supremacias matrilínea e depois patrilínea oriundas das forças da natureza, colocando à luz uma sociedade multicultural.
Desta forma, o “mythos” meio caminho entre razão e fé atua como sua verdade própria e, unindo-o ao logos, pode-se tentar, de maneira coerente, explicar o homem e o mundo.
Os deuses gregos chegaram até nós via produção poética e as estórias relatadas através de documentos de cunho profano foram absorvidas pelo imaginário coletivo e tornaram-se mitos canônicos. Assim, ainda segundo Junito: «O mito não é grego nem latino, mas um farol que ilumina todas as culturas». (BRANDÃO, 1991, P.14.)
Homero (século IX a.C.), Hesíodo (século VIII a.C.) e Evêmero ( século IV a.C.), entre outros poetas, possibilitaram a difusão do mito como narrativa da criação: de que modo algo que não era começou a ser. Portanto, compreender o mito é compreender o início das coisas do caos ao cosmo, revivendo as origens através de suas fontes.
Nas sociedades primitivas o mito foi a mola propulsora de exaltação da crença e, através dele, as religiões foram codificantes da sabedoria prática dos povos. O profano como tempo de vida e o sagrado como tempo da eternidade fez aparecer a experiência religiosa, ritualizando-a na celebração hierofânica.
O citado romance amadiano remete-nos ao percurso cultural brasileiro no qual à busca de identidade do povo baiano junta-se a indagação das origens afro-brasileiras, marcada pelo sincretismo religioso usado como meio de preservação no fetichismo do Candomblé africano que, por sua vez, prolonga, à sua maneira, a trajetória dos deuses greco-latinos, nossos ancestrais míticos.(...)
Referência bibliográfica:
AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. 36 ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.