"As relações étnicos raciais através da história do Brasil"

A SEDUC - Secretaria de Educação, Ciência e Tecnologia de Taboão da Serra - promoveu o lançamento do Programa de Formação Continuada para os profissionais da Rede Municipal de Ensino. O Programa leva o nome de " Redes, Saberes e Identidade".

domingo, 29 de maio de 2011

PARA FALAR DE SÃO PAULO

Período Colonial
Site Oficial do Estado de São Paulo

A colonização de São Paulo começou em 1532 quando, em 21 de janeiro, Martim Afonso de Souza fundou a povoação que iria transformar-se na Vila de São Vicente, uma das mais antigas do Brasil e a mais remota da Colônia. Dando continuidade à exploração da terra e em busca de novos gentios a evangelizar, no cumprimento da missão que os trouxera ao Novo Mundo, um grupo de jesuítas, do qual faziam parte José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, escalou a serra do mar chegando ao planalto de Piratininga, onde encontraram, segundo cartas enviadas a Portugal, "uma terra mui sadia, fresca e de boas águas". Do ponto de vista da segurança, a localização topográfica de São Paulo era perfeita: situava-se numa colina alta e plana, que facilitava a defesa contra ataques de índios hostis. Nesse lugar, fundaram um colégio em 25 de janeiro de 1554, ao redor do qual se iniciou a construção das primeiras casas de taipa, que dariam origem ao povoado de São Paulo de Piratininga. Em 1560, o povoado ganhou foros de vila.
No início, São Paulo vivia da agricultura de subsistência, aprisionando índios para trabalharem como escravos na frustrada tentativa de implantação em escala da lavoura de cana-de-açúcar. Mas o sonho já era então a descoberta do ouro e dos metais preciosos. Assim, na segunda metade do século começariam as viagens de reconhecimento ao interior do país, as "bandeiras", expedições organizadas para aprisionar índios e procurar pedras e metais preciosos nos sertões distantes, dando início ao desbravamento das Minas Gerais. Em 1681, São Paulo foi considerada cabeça da Capitania, que incluía então um território muito mais vasto que o do atual Estado.

Embora em 1711 a vila tenha sido elevada à categoria de cidade, o próprio êxito do empreendimento bandeirante fez que a Coroa desmembrasse a capitania, para ter controle exclusivo sobre a região das Minas. Por isso, ao longo de todo o século XVIII, São Paulo continuava sendo apenas o quartel-general de onde não cessavam de partir as "bandeiras", responsáveis pela ampliação do território brasileiro a sul e a sudoeste muito além da linha de Tordesilhas, na proporção direta do extermínio das nações indígenas que colocavam resistência a esse empreendimento. Disso tudo resultou a proverbial pobreza da província de São Paulo na época colonial, carente de uma atividade econômica lucrativa como a do cultivo da cana-de-açúcar no Nordeste, contando sobretudo com a mão-de-obra do indígena e desfalcada de seus homens válidos, que partiam para o sertão a redesenhar as fronteiras do Brasil.

Durante os três primeiros séculos de colonização, o número de índios e mamelucos superou em muito o de europeus. Até meados do século XVIII, predominava entre a população uma "língua geral" de base tupi-guarani, sendo essa língua franca a mais falada em toda a região. No período da união das coroas ibéricas, entre 1580 e 1640, estima-se que o espanhol fosse a segunda língua da vila de São Paulo. Após a Independência, em 1822, os africanos representavam algo em torno de 25% da população, e, os mulatos, mais de 40%. Era já então insignificante a presença de índios nas zonas ocupadas pela colonização, e em especial nas lavouras de açúcar, implantadas com êxito no litoral norte e na região entre Itu e Sorocaba. Assim, a grande virada da economia paulista só aconteceria na passagem do século XVIII para o XIX, quando as plantações de café começaram a substituir as de cana-de-açúcar e a se preparar para ocupar o primeiro plano na economia nacional.

terça-feira, 17 de maio de 2011

CENTRO VELHO DE SÃO PAULO



O Pátio do Colégio é o marco inicial no nascimento da cidade de São Paulo. O local, no alto de uma colina entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, foi o escolhido para iniciar a catequização dos indígenas.

Em 25 de janeiro de 1554, foi realizada, diante da cabana coberta de folhas de palmeira de cerca de noventa metros quadrados - ou, como descrita por Anchieta, de dez por catorze passos craveiros (passo craveiro era uma medida linear portuguesa) - a missa que oficializou o nascimento do colégio jesuíta. Em 1556, o padre Afonso Brás, precursor da arquitetura brasileira, foi o responsável pela ampliação da construção original, que recebeu oito cubículos para servir de residência aos jesuítas. Brigas entre os colonos e religiosos culminaram na expulsão dos jesuítas do local em 1640, para onde só retornariam treze anos mais tarde. Na segunda metade do século XVII, foi erigida a terceira edificação, de taipa de pilão.
O Pátio do Colégio foi sede do governo paulista entre os anos de 1765 e 1912, após a apropriação do local pelo Estado, servindo como palácio dos Governadores, devido à expulsão dos jesuítas de terras portuguesas, determinada pelo marquês de Pombal em 1759. O antigo casarão colonial foi completamente descaracterizado por profundas reformas durante todo esse período, sobretudo no último quartel do século XIX.
Há fragmentos de uma parede do antigo colégio dos jesuítas na edificação atual, que procura simular a original seiscentista, visto que a igreja foi demolida em 1896 e o palácio dos Governadores, em 1953, sendo inaugurado o conjunto no formato atual em 1979. Abriga o museu Anchieta.

O Pátio do Colégio hoje

O Pátio do Colégio é administrado pela Companhia de Jesus. Seu complexo abriga diversas atividades culturais e religiosas. Abriga um museu, a Igreja, uma biblioteca temática e projetos sociais.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A DIFUSÃO DA QUESTÃO INDÍGENA PELA IMPRENSA MATO-GROSSENSE

André Luís Alves, Universidade Federal de Mato Grosso - 1999

INTRODUÇÃO

Qual é o tratamento dado às questões indígenas pela atual imprensa mato-grossense? Quando e por que um índio ou uma sociedade indígena é notícia? Responder essas perguntas foram os objetivos desta pesquisa.
Para tanto, algumas hipóteses precisaram ser levantadas para orientar os estudos: a) a imprensa tem pouco interesse em publicar assuntos indígenas por acreditar que o tema não vende jornal; b) povos indígenas, na maioria das vezes, só aparecem na imprensa quando estão relacionados a invasões de terra, sejam eles os invasores ou os invadidos; c) nas matérias sobre esses temas os índios não são ouvidos adequadamente, com a imprensa se abastecendo quase somente pelas fontes oficiais (Funai, Ministério Público, Polícia Federal e ONGs) e d) a falta de conhecimento do assunto do repórter ou editor pode reforçar estereótipos sobre essas sociedades e de outras minorias.
Primeiramente foram pesquisados alguns periódicos, compreendidos entre 1847 e 1969, microfilmados no Núcleo de Documentação e Informação Histórico Regional de Mato Grosso (NDIHR). Pela análise dos jornais A Cruz, O Porvir, O Matto Grosso, A Opinião, O Iniciador, entre outros, pôde-se saber quais os enfoques que a imprensa mato-grossense dava aos índios.
Para a análise da atual imprensa mato-grossense foram escolhidos os jornais Diário de Cuiabá e A Gazeta. O primeiro por ser o mais antigo em circulação no estado de Mato Grosso - completou 30 anos este ano - e o segundo por ter maior circulação na capital mato-grossense - quase 70% de preferência dos leitores, de acordo com dados do Ibope de novembro de 1997.
Os jornais Diário de Cuiabá e A Gazeta foram analisados em dois momentos. Primeiro foi verificado, em números, a quantidade de material informativo e opinativo fornecida por esses dois jornais aos seus leitores entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 1997. Depois, essas matérias foram classificadas como notícia, reportagem e entrevista (informativos), editorial, artigo, resenha e carta (opinativos), de acordo com a classificação proposta pelo jornalista Marques de Melo.
Num segundo momento utilizou-se o método da semana composta. O método é mais comumente usado para aferir conteúdos televisivos mas foi adequado para medir a regularidade e os conteúdos das matérias, inclusive para se poder fazer um estudo mais aprofundado, verificando, inclusive, a centimetragem das matérias.
Paralelamente, foi aplicado um questionário estruturado aberto dirigido especificamente aos jornalistas.
 
 
1 - AS SOCIEDADES INDÍGENAS

Entende-se genericamente por "índio" aquele indivíduo que dessa forma se auto identifica e é reconhecido pelas outras pessoas de sua comunidade como um dos seus. Índio é aquele que possui vínculos históricos com populações de origens pré-colombianas.
Por questão indígena entende-se o conjunto de problemas que as diversas populações vêm sofrendo cotidianamente: A invasão de garimpeiros, madeireiros, e fazendeiros em territórios indígenas, a luta pela demarcação de terras, o alcoolismo, a desnutrição, outras doenças. A construção de estradas que atravessam reservas, hidrelétricas e hidrovias, como a Paraná-Paraguai e Araguaia-Tocantins, que podem reduzir ou inundar muitas áreas indígenas também são questões indígenas. De fato, os problemas sofridos pelas populações indígenas são questões nacionais, pois os povos indígenas também são povos brasileiros.
A população indígena no Brasil à época da chegada de Pedro Álvares Cabral girava em torno dos cinco milhões. Daquela época até 1950 os povos indígenas foram caçados, escravizados, sofreram graves reduções. Inúmeras sociedades desapareceram, e muitas outras estiveram bem próximas do desaparecimento, em função das práticas de extermínio dos governos e da sociedade brasileira.
A partir de 1950, embora em alguns grupos indígenas, como os Jabuti e os Avá-Canoeiros, existam apenas alguns representantes, muitas outras sociedades começaram a ver suas populações aumentando, ao contrário do que era previsto:

A morte parecia ser o destino fatal dos índios brasileiros e, de resto, dos demais povos chamados primitivos. De repente, começou a se ver a reversão desse quadro. Os Nambiquara passaram a crescer altivos e determinados a permanecer em suas terras a qualquer custo. Os Urubu-Kaapor, que chegaram a quatrocentos em 1980, hoje são setecentos. Os Mundurucu já alcançam a casa dos 5 mil. Os Xavante, que eram 2500 em 1946, somam 8 mil hoje (Ribeiro: 1996: 331).

Atualmente há 325.652 indivíduos 1 (sem contar os índios isolados), divididos em cerca de 215 etnias. São faladas por eles em torno de 170 línguas distintas, divididos em dois troncos principais, Tupi e Macro-Jê e outras seis importantes famílias lingüísticas: Aruak, Arawá, Karib, Maku, Tukano e Yanomami. Sessenta por cento da população indígena do Brasil se encontra na chamada Amazônia Legal, que inclui o estado de Mato Grosso.
Ao todo, os grupos indígenas estão distribuídos em 554 áreas, que abrangem 964.452 quilômetros quadrados, ou 11,12% do território nacional. Entretanto, mais da metade dessas terras ainda não foram sequer demarcadas e várias delas encontram-se parcialmente ocupadas por fazendeiros, garimpeiros, madeireiros e posseiros.
Em Mato Grosso, desde o século XVII, os índios sofreram com o contado com os brancos. Primeiramente por causa do garimpos e a partir da segunda metade do século XIX por causa do extrativismo vegetal, principalmente borracha, caucho e poaia. Da década de 60 em diante, com a colonização do estado e a expansão agropecuária, os índios continuam representando "obstáculos" ao desenvolvimento da região e, portanto, deviam ser domados, caçados, escravizados, exterminados. Muitas sociedades indígenas, como os Coxiponé (subgrupo Bororo) e os Payaguás, foram inteiramente exterminadas.
Além da violência física sofrida, as populações indígenas viram drasticamente reduzidos seus imemoriais territórios de domínio que deram lugar aos latifúndios incorporados em Mato Grosso.
Os "desbravadores" do sertão mato-grossense rapidamente impuseram novas necessidades e novas tecnologias até então estranhas às suas culturas.
O estado de Mato Grosso é o quinto estado em quantidade de índios, superado apenas pela Amazônia, Roraima, Pernambuco e Mato Grosso do Sul, incluindo os que vivem em perímetros urbanos. São aproximadamente 20 mil índios de 35 sociedades indígenas divididos em 56 áreas com diversos graus de regularização fundiária, totalizando de 12 milhões de hectares, mais ou menos 12% do estado, só perdendo em extensão de território para os estados da Amazônia e do Pará.
Os grupos indígenas de Mato Grosso falam línguas do tronco Macro-Jê, Tupi e línguas das famílias Karib, Aruak, Nambikwara e Irantxe. Isso evidencia uma variedade de práticas culturais, sociais e econômicas e diversidade nas formas de interação com a natureza.

1.1 - A Imprensa e As Sociedades Indígenas

As sociedades indígenas sempre foram pauta para jornal. Isso pode ser verificado com uma rápida pesquisa em arquivos ou mesmo observando com um pouco mais de atenção os jornais nas bancas. O que vem mudando é a forma e o ângulo das abordagens dos temas indígenas pela imprensa. De violentos passaram a passivos, de sem voz a reclamadores.
A imprensa mato-grossense foi inaugurada em 1839, com o jornal Themis Matogrossense, primeiro jornal editado e impresso em Cuiabá. A partir de 1848, com a Gazeta Cuyabana, começam a serem dados os primeiros ensaios da imprensa mato-grossense informativa e opinativa.
Esses primeiros jornais, por sua natureza política, e até amadora, eram efêmeros, raramente passando dos quatro anos de vida. Outros jornais que vieram anos mais tarde, mas ainda com essas características foram O Porvir, A Opinião e O Iniciador.
Nesse início, os indígenas eram tratados, em pequenas notas, como violentos, cruéis, assassinos. Não eram raros textos como esses:

Índios Continuam os coroados a fazer das suas: consta-nos que distante da Chapada menos de meia légua, matarão ultimamente tres pessoas, praticando em seguida actos de maior barbaridade (O PORVIR, 28/06/1877).
Selvicolas Segundo vemos de uma carta particular que nos foi obsequiosamente mostrada, os selvicolas continuavão em suas depredações bem perto da capital.
Matárão no lugar denominado Fazendinha um filho do individuo Joaquim Rosa e um camarada. Atacárão o sítio de João da Costa Teixeira e ahi matarão um escravo (A OPINIÃO, 14/03/1878).
No bairro Canastra tem apparecido indios que tem causado inquietações aos moradores, impedindo que cuidem de suas roças (O INICIADOR, 08/02/1880).

A partir do final do século passado e nas primeiras décadas deste, o enfoque ao índio começa a mudar. Parte devido ao amadurecimento da imprensa - reflexo da mudança da postura da sociedade - mas também por causa do aparecimento do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) em 1910. O SPI foi criado com uma perspectiva positivista chamada de "doutrina de proteção fraternal ao silvícola", sistematizada e posta em prática pelo engenheiro-militar Cândido Mariano da Silva Rondon. Sob o lema morrer se preciso, matar nunca, Rondon criticou as práticas de extermínio bem como sua assimilação dirigida e acelerada (...) defendendo ao contrário um tratamento humanitário aos silvícolas (Oliveira, 1995:65). A imprensa começa, devagar, a publicar artigos como o de Nicolau Horta Bueno 2 , Em Prol do Índio :

Afim de demonstrarmos a nossa these a favor do concurso indigina, e desvanecer a ideia de que os indios mantém a linha telegraphica continuadamente cortada, vamos valer-nos de dois testemunhos (...)
Testemunho official (...) "A tendencia evolucionária dos indios Nhambiquaras ao longo da Linha no sentido da civilização já é bem caracterizada com o auxílio espontaneo que, intermitentemente vão prestando ao serviço de sua conservação..."
Nucleo Utiarity - (...) "O nucleo indigina de Utiarity, criado pela commissão com o objectivo de agrupar em torno da estação desse nome os remanescentes da nação Pareci, e aproveital-os nos trabalhos de conservação e tráfego da linha, vae progredindo sensivelmente. Presentemente acham-se nucleados 107 indios dos quaes 63 adultos. Das 44 creanças, 27 frequentam a escola mantida pelo governo de Matto Grosso.(O MATTO GROSSO, 21/12/1930).

Nessa mesma época, os índios muitas vezes foram tratados como "filhos adotivos" pela imprensa católica, então muito forte em Mato Grosso. São representantes o jornal A Cruz e a Revista Matto Grosso. É o resultado das campanhas religiosas de catequização, em que o êxito, pelo que foi publicado nos jornais da época, foi maior entre os Bororo.
O trechos a seguir são exemplos do que saía publicado sobre os indígenas:

Esteve de passagem em Paris o Rev.ma Padre Antonio Malan, Inspector da Missão Salesiana em Matto Grosso e veio acompanhado pelo jovem indio Miguel, filho de Bay-Mizera, cacique da tribu dos indios Bororos-Coroados, hoje aldeados na Colonia Central da Missão. Estes indios ainda ha poucos anos, constituindo uma tribu poderosa e indomavel, são hoje, graças ao sacrificios e á abnegação da missão salesiana, os habitantes pacificos de tres colonias e entregam-se com proveito aos trabalhos da agricultura (O Filho d'um Cacique dos Bororós em Paris / O MATO GROSSO, Março/1907).

As narrativas, em forma de crônicas, também eram comuns, escritas por missionários religiosos que tiveram a experiência de viverem entre índios. O exemplo a seguir é de uma carta de autoria do padre Antonio Colbacchini à Dom Aquino sobre suas necessidades religiosas frente aos Bororo.

... Sentia imperioso e irresistível desejo de lançar-me no meio daquellas selvas para procurar os pobres indios que por lá vivem errantes e conduzil-os a Jesus Redemptor e Senhor das Nações. No fundo do coração exclamei: Domine! Adreniat regnum tuum! (O Evangelho nas Selvas / O MATO GROSSO, Fevereiro/1914)

Os jornais da primeira década do jornalismo mato-grossense traziam seções intituladas Notícias do Paquete, ou nomes semelhantes, em que eram comentadas notícias vindas de capital (Rio de Janeiro) por paquetes. O jornal A Cruz replicou o "ataque" de um jornal carioca à uma missão religiosa entre comunidades indígenas:

Um vespertino carioca, A Rua, entendeu atacar a missão franciscana que, com séde em Santarém, abnegadamente e com applausos geraes, se veem dedicando ao trabalho arduo e perigoso de integrar na civilização nossos infelizes irmãos, os selvicolas daquellas longinquas e desamparadas regiões do extremo Norte (Catequese de Índios no Tapajós / A CRUZ, 09/04/1916).

A Igreja Católica obteve maior êxito, do ponto de vista da catequização, entre os Bororo mas grupos dos Xavante também sofreram com as missões salesianas. Os jornais vinculados às missões comprovam.

Entre as varias Missões que os Salesianos de Dom Bosco e as filhas de Maria Auxiliadora mantém em Mato Grosso destaca-se a "Colônia São José" de Sangradouro. Residem nessa Missão 300 Xavantes. A Missão sustenta um pequeno internato para 0meninos com 40 indiozinhos e outro para meninas com umas 10 indiazinhas. (...) Fazem questão de serem considerados civilizados. Sua maior felicidade é receber o batismo. (...) Se por doença algum deles tiver que faltar à aula; no dia seguinte se apresenta à irmã professora para que lhe explique a lição da aula que faltou! (A CRUZ, 06/11/60).

A partir do final da década de 60, os indígenas passam a figurar de maneira mais abrangente nos noticiários. Entre os motivos podemos destacar pelo menos quatro: A) a criação da Fundação Nacional do Índio (Funai) em 1967, órgão substituto do SPI; B) a política de ocupação amazônica, que provocou a retirada dos Panará, por exemplo, do seu território tradicional; C) os antropólogos brasileiros, como Darcy Ribeiro, se identificaram, em muitas linhas de pesquisa, com assuntos indígenas e relações interétnicas e D) o surgimento de um novo tipo de liderança indígena, segundo Darcy Ribeiro, sem nenhuma submissão diante dos missionários, de seus protetores oficiais ou de quaisquer agentes da civilização (1996:333). Ou seja, lideranças de várias nações indígenas começam a refletir sobre suas relações com a sociedade brasileira. Com isso, passaram conseguir em alguns momentos um espaço, ainda que pequeno, na imprensa brasileira.
Como bem lembra o jornalista Luiz Beltrão 3,
a análise das matérias indigenistas divulgadas pela imprensa brasileira no período abrangido por esta pesquisa (janeiro de 1973 a janeiro de 1975) torna evidente o despertar da consciência do aborígine de seus direitos nacionais reconhecidos - embora nem sempre respeitados - pela civilização branca envolvente. Sobretudo do direito à terra, às extensas áreas que seus antepassados habitaram... (1977:61)
De acordo com o antropólogo Carlos Alberto Ricardo 4 (1995:31) percebe-se que a imprensa nacional passou a ter um real interesse pelos povos indígenas, embora ofereça histórias superficiais, fragmentadas e, não raramente, errôneas. Ainda segundo o autor, a partir dessa época algumas etnias surgem nos noticiários como "índios de plantão", devido a circunstâncias históricas. Ele cita como exemplos os Panará ("pacificados" e removidos para a construção da rodovia Cuiabá-Santarém, nos anos 70), os Kayapó (de Raoni e Paiakã), os Yanomami (invasão de garimpeiros em seus territórios), os Guarani (suicídio de jovens), entre outros.
Na década de 90, por volta da reunião mundial da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre ecologia e desenvolvimento, que aconteceu no Rio de Janeiro (ECO 92), os índios foram descobertos pela imprensa brasileira como os "ecologicamente corretos", percebendo que manejam os recursos naturais (animal, vegetal e mineral) de maneira branda, ou seja, com poucas alterações ambientais. A partir de então, matérias de assuntos indígenas correlacionadas ao ambiente tornaram-se freqüentes.
Atualmente, as notícias referentes às questões indígenas são, conforme a jornalista Priscila Siqueira (1992:227-230) 5, muito factuais, faltando reflexões de suas causas e conseqüências por meio de editoriais ou, simplesmente, de suítes (tratamento continuado das matérias). Para a jornalista, haveria um conflito entre as causas humanistas (dos jornalistas) e os interesses econômicos (da empresa jornalística). Em outros termos, a imprensa "evitaria" publicar determinadas matérias para não se indispor com certos anunciantes ou com alguns setores do governo.
Segundo a autora, a imprensa e todos os profissionais da comunicação deveriam refletir sobre a necessidade da democratização da informação, ainda mais se tratando de minorias, como é o caso das sociedades indígenas. Ela alerta que os jornalistas têm vários compromissos com a questão indígena mas, a não ser em alguns casos esporádicos como é o caso do Washington Novaes, não o cumprem:
Compromisso de resgate de 500 anos de opressão das populações nativas do nosso continente; compromisso de resgate de culturas que só podem enriquecer a nossa própria; compromisso de sobrevivência não só de parcelas consideráveis de nossa população mas de sobrevivência mesmo de quem provou ser até agora, os únicos que souberam conviver com a natureza sem expropriá-la (1992:230).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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LARAIA, Roque de Barros. Cultura, um Conceito Antropológico. 10ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
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MEDINA, Cremilda de Araújo. Notícia, um Produto à Venda. São Paulo: Alfa-Ômega, 1978.
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RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
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