"As relações étnicos raciais através da história do Brasil"
A SEDUC - Secretaria de Educação, Ciência e Tecnologia de Taboão da Serra - promoveu o lançamento do Programa de Formação Continuada para os profissionais da Rede Municipal de Ensino. O Programa leva o nome de " Redes, Saberes e Identidade".
quarta-feira, 29 de junho de 2011
SINCRETISMO RELIGIOSO
Iniciamos citando uma passagem do romance :"A tenda dos milagres" de Jorge Amado, que, pela voz do protagonista Pedro Arcanjo cognominado Obitokô Ojuobá - os olhos de Xangô, diz:
Sei de ciência certa que todo sobrenatural não existe, resulta do sentimento e não da razão, nasce quase sempre do medo. (...) O homem antigo ainda vive em mim, além da minha vontade, pois eu o fui por muito tempo (...) É fácil ou é difícil conciliar teoria e vida, o que se aprende nos livros e a vida a cada instante? (AMADO, 1987, p.187) Esta, parece-nos, é a síntese da indagação humana sobre o sagrado, o questionamento da possibilidade de um outro espaço vivencial que, amparado pelos mitos clássicos, repete-se a cada momento e a cada cultura. Jung reconhecia os mitos como percepção do simbólico que levaria o homem das trevas para a luz como imagens e fantasias retiradas da consciência, reproduzidas pelo inconsciente coletivo e ali ficando como marcos referenciais das raízes arquetípicas. Através desses símbolos podemos pensar na formação, identidade e cultura de um povo.
Junito Brandão, em seus estudos clássicos, abre a perspectiva de associarmos a formação étnico-cultural brasileira com as matrizes da miscigenação européia, africana e indígena à mitologia grega, como os primórdios das supremacias matrilínea e depois patrilínea oriundas das forças da natureza, colocando à luz uma sociedade multicultural.
Desta forma, o “mythos” meio caminho entre razão e fé atua como sua verdade própria e, unindo-o ao logos, pode-se tentar, de maneira coerente, explicar o homem e o mundo.
Os deuses gregos chegaram até nós via produção poética e as estórias relatadas através de documentos de cunho profano foram absorvidas pelo imaginário coletivo e tornaram-se mitos canônicos. Assim, ainda segundo Junito: «O mito não é grego nem latino, mas um farol que ilumina todas as culturas». (BRANDÃO, 1991, P.14.)
Homero (século IX a.C.), Hesíodo (século VIII a.C.) e Evêmero ( século IV a.C.), entre outros poetas, possibilitaram a difusão do mito como narrativa da criação: de que modo algo que não era começou a ser. Portanto, compreender o mito é compreender o início das coisas do caos ao cosmo, revivendo as origens através de suas fontes.
Nas sociedades primitivas o mito foi a mola propulsora de exaltação da crença e, através dele, as religiões foram codificantes da sabedoria prática dos povos. O profano como tempo de vida e o sagrado como tempo da eternidade fez aparecer a experiência religiosa, ritualizando-a na celebração hierofânica.
O citado romance amadiano remete-nos ao percurso cultural brasileiro no qual à busca de identidade do povo baiano junta-se a indagação das origens afro-brasileiras, marcada pelo sincretismo religioso usado como meio de preservação no fetichismo do Candomblé africano que, por sua vez, prolonga, à sua maneira, a trajetória dos deuses greco-latinos, nossos ancestrais míticos.(...)
Referência bibliográfica:
AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. 36 ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
PRESENÇA DO NEGRO NA MÍDIA
Carlos Vogt (Caderno Negro)
Há um ano, em 23 de novembro de 2002, o Jornal Nacional, transmitido pela Rede Globo e assistido diariamente por cerca de 40 milhões de pessoas, teve pela primeira vez um apresentador negro, o até então repórter, Heraldo Pereira. Na época, a emissora "preparou" o público para a primeira aparição de Pereira, em programas exibidos durante a semana anterior, fato que rendeu notícias em vários veículos nos dias posteriores.
A Rede Globo é a emissora brasileira que concentra o maior número de repórteres negros. Mesmo assim, o número não chega a dez, de acordo com o jornalista, pesquisador e professor da Unesp de Bauru, Ricardo Alexino. A pequena parcela de negros na televisão vai além dos telejornais e pode ser observada também nas telenovelas.
Segundo o cineasta Joel Zito Araújo, em seu livro A negação do Brasil , "o enfoque racial da televisão brasileira é resultado da incorporação do mito da democracia racial brasileira, da ideologia do branqueamento e do desejo de euro-norte-americanização de suas elites". A negação do Brasil se transformou em documentário no início do ano e uma das cópias foi entregue ao Ministro da Cultura, Gilberto Gil, numa tentativa de se abrir um diálogo para a questão e aumentar a participação dos negros na TV, que hoje não passa de 10%. "Existem mais negros na tevê dinamarquesa do que na brasileira", constata.
Araújo lembra que na década de 60, os poucos atores negros que fizeram parte do elenco das novelas na Rede Tupi ou na Rede Globo representavam escravos (quando a novela era de época), "malandros" ou profissionais com baixo prestígio social, como empregadas domésticas ou motoristas. Na década de 70, o número de atores negros começou a aumentar, o que continuou ocorrendo nas décadas seguintes.
Para o psicólogo e pesquisador Ricardo Franklin Ferreira, a presença dos negros na TV é fundamental para a construção de uma imagem de si mesmo. "Enquanto as crianças negras continuarem tendo somente mulheres brancas e loiras como conceito de beleza, como a Xuxa, elas terão dificuldades em aceitar suas qualidades", afirma. É o que Araújo chama de "ideologia de braqueamento", presente na televisão brasileira.
A pequena parcela de profissionais negros na mídia não é uma característica só do meio televisivo. Dados da Comissão de Jornalistas pela Igualdade (Cojira), do Sindicato dos Jornalistas, mostram que a taxa de desemprego entre negros, em São Paulo, é 40% maior do que entre brancos, o que pode se refletir também no caso do desemprego entre os jornalistas negros. "As empresas de comunicação não são uma ilha de igualdade nesse mar de discriminação", descreve o Estatuto da Cojira. Essa situação tem reflexo também nos temas que são tratados pela imprensa.
A reduzida cobertura de temas relacionados aos negros pela grande mídia foi percebida em 1996 pela revista Raça Brasil, o primeiro meio de comunicação impresso, de grande alcance, direcionado ao público negro. No seu lançamento, a revista atingiu uma tiragem de 280 mil exemplares, um fenômeno editorial (atualmente, a tiragem é de 50 mil exemplares).
"O Brasil é um país racista, nós observamos e vivemos isso", afirma Conceição Lourenço, editora da Raça, cuja redação é composta só por negros. Ela considera que as revistas atuais não atendem os negros porque não são direcionadas a eles. "Isso é percebido principalmente na área de estética", completa.
O sucesso da Raça causou o que Lourenço chama de revolução na publicidade. "As grandes marcas, principalmente de cosméticos, começaram a criar produtos para atender esse público negro, que até então parecia não existir. É a classe média negra, que ganha mais de 10 salários mínimos", afirma.
Para Alexino, no entanto, falta muito para que a publicidade consiga dialogar com o público negro. "A imprensa progrediu, mas a publicidade não", afirma. Uma campanha considerada polêmica na publicidade foi a da multinacional Benetton, que teve como slogan United Colors (cores unidas). Esta foi alvo de muitas críticas. "Em maio de 1990, a campanha trouxe uma mulher negra amamentando uma criança branca, o que atiçou os ânimos do movimento negro e resultou em pichação de muitos outdoors da campanha com a frase: Mucamas, nunca mais", lembra Alexino.
A imprensa direcionada a negros, produzida por negros e retomada pela revista Raça, data do início do século XX. Sentindo a impermeabilidade da "imprensa branca", um grupo de negros paulistas fundou, em 1915, uma imprensa alternativa. É o que a antropóloga Miriam Nicolau Ferrara, estudiosa do assunto, chama de "imprensa negra". Pela primeira vez o negro tornou-se o alvo de um conjunto de periódicos específicos, que se sucederam durante quase cinqüenta anos, até 1963, quando foram reprimidos pela ditadura.
Os jornais da imprensa negra concentraram o seu noticiário apenas nos acontecimentos da comunidade, divulgando a produção dos seus intelectuais e não priorizando fatos de grande repercussão nacional e internacional (como as duas Grandes Guerras, a Coluna Prestes, entre outros). "Movimentos de militância, como a imprensa negra, foram e são formas de valorizar a cultura negra e de aumentar a sua auto-estima", afirma Ricardo Ferreira.
Outra maneira de reforçar a identificação positiva é o aumento do número na política , o que gera uma conseqüente exposição na mídia. De acordo com Alexino, políticos negros tendem a se voltar para as questões dos negros, assim como pesquisadores tendem a trabalhar com questões do movimento negro na academia.
Os avanços inicialmente sentidos nas esferas municipais, como a eleição do prefeito Celso Pitta em São Paulo, em 1997, e estaduais, como ascensão a governadora do Rio de Janeiro durante o ano de 2002 de Benedita da Silva, começam a ser percebidos também no Planalto. O Governo Lula tem quatro de seus ministros negros: Benedita da Silva, Gilberto Gil, Marina Silva e Matilde Ribeiro, além de Joaquim Benedito Barbosa Gomes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). No governo anterior, dos 77 ministros dos quatro tribunais superiores, havia apenas um negro, Carlos Alberto dos Reis, do Tribunal Superior do Trabalho.
A maior participação dos negros no novo governo já pode ser percebida. Em outubro foi assinado o Protocolo de Intenções para Implementação do Programa de Fortalecimento Institucional para a Igualdade de Gênero e Raça, que prevê a criação de um programa de capacitação de gestores encarregados de definir políticas públicas que considerem fatores como gênero e cor no planejamento de metas e de ações governamentais.
A busca e a conquista de mais espaços pelos negros na política e em outros setores da sociedade constitui um caminho de mão dupla. "Os negros na política servem como uma referência aos demais, faz com que eles acreditem que são capazes", afirma Ferreira. Além disso, com maior atuação política, a participação dos negros na mídia também aumenta. "O negro passa a se enxergar em áreas que antes não via, se aceita mais como negro. É uma espécie de estímulo", complementa Alexino. Assim, o negro também aumenta sua pressão para a entrada nessas áreas.
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