Inserção da Cultura Afrodescendente no Currículo Escolar - Abordagens e Perspectivas de um Processo Duradouro
Ao longo da História do Brasil, discriminação, racismo e preconceito sempre fizeram parte do cotidiano da vida da população afrodescendente, refletindo-se ainda mais na vida de mulheres, homens e crianças prodigiosamente desprestigiados social e economicamente, situação que, considerando mais de 500 anos de existência, pouco se alterou. Em 1854 o decreto nº 1.331 legitimou a não admissão de escravos nas escolas públicas, mais adiante, em 1878 o decreto nº 7.031-A determinou que os negros só poderiam estudar a noite e ainda assim, vários mecanismos foram desenvolvidos afim de, dificultar tal oportunidade de educação, se é que podemos chamar de oportunidade. Estabelecia-se, desde então, um divisor étnico-racial que se enraizou nos sistemas escolares e daí se dissipou para toda a sociedade brasileira. Muitos anos depois busca-se alterar este quadro, a partir do mesmo veículo- a Educação, mas, infelizmente, pode-se afirmar que o processo de desqualificação de um sistema tão arraigado de preconceitos e armado sobre os dormentes da segregação será uma luta difícil, longa e dolorosa.
Desde sempre a desqualificação de um em favor da afirmação de outro esteve presente nas relações étnico-raciais. A propósito, Borges (2002) afirma que ainda na Antiguidade Heródoto (século V a.C.) escrevia textos sobre os não-gregos, chamando-os de bárbaros, baseando essa denominação na superioridade dos gregos e na inferioridade dos estrangeiros, determinando a superioridade de sua cultura como justificativa das relações de dominação política, militar, econômica e cultural a qual foram submetidos os povos estrangeiros conquistados pela Grécia. Já na Europa do século XV, a dominação de africanos foi justificada pela culpa do pecado original dos descendentes de Caim. Não por acaso, Borges (2002) ainda coloca que, pelo ideologismo português das raças infectas (índios, negros, judeus e mouros), a história da colonização brasileira é marcada pela diferença entre homens, moldada desde o início por concepções racistas de superioridade e inferioridade.
A discussão sobre a invenção e a intenção de raça foi abordada por Kenski (2003), fazendo citação ao botânico sueco Carolus Linnaeus que criou a humanidade Homo sapiens e a dividiu em quatro grupos: os vermelhos americanos, geniosos, despreocupados e livres; os amarelos asiáticos, severos e ambiciosos; os negros africanos, ardilosos e irrefletidos e os brancos europeus, evidentemente, ativos, inteligentes e engenhosos, este procedimento, possivelmente, abre as discussões sobre a existência de raças humanas e o valor de cada uma delas, utilizando o termo RAÇA com suposta legitimidade científica, fator que, no mundo moderno, foi alterado pelo significado social do termo, posto de sua inexistência científica.
Ainda assim, a teoria cientificista de Linnaeus encontrou muitos adeptos séculos afora, um deles foi o conde francês Joseph Arthur de Gobineau, que quase 100 anos depois de Linnaeus, coloca Kenski (2003), concluiu que a miscigenação causa a decadência dos povos e que os alemães eram uma raça superior às outras, contrariando amplamente o juízo social e antropológico criado por cientistas sérios de que a miscigenação conduz a sociedade a um maior potencial de desenvolvimento em virtude da associação cultural e genética.
A realidade brasileira de crença e absorção da divisão da sociedade em raças é um fato consumado que contraria o discurso nacional da democracia racial, isto porque, os brasileiros não só acreditam nas raças como também agem em consonância com elas, fundamentando preconceito, discriminação e segregação, ao passo que "o resultado da crença de que não temos racismo foi, de acordo com muitos cientistas, um dos piores tipos de racismo que se conhece. A forma mais eficiente de reforçar o preconceito é achar que ele não existe, que é natural" (KENSKI, 2003 p.49).
Para Borges (2002), o fato é que a sociedade brasileira encontra-se marcada pela exclusão social e pela discriminação racial. Essa situação reflete a existência de um racismo efetivo, com repercussões negativas na vida cotidiana da população negra, principalmente quando cidadania é o tema em questão.
De acordo com o Relatório do Conselho Nacional de Educação quando da aprovação das Diretrizes para a Educação das Relações Étnico-Raciais (2004), sem a intervenção do Estado, os postos à margem, entre eles os afro-brasileiros, dificilmente poderão romper o sistema que agrava desigualdades e gera injustiça, ao reger-se por critérios de exclusão, fundados em preconceitos e manutenção de prestígio e privilégios para uns em detrimento do desprestígio de muitos.
Chiavenato (1999), acerca da culturalização da teoria de inferioridade de indivíduos negros, faz citação à publicação no Caderno de Folclore, nº 7 do Ministério da Educação e Cultura (MEC) em que publicou-se: " a entrada do negro no Brasil foi simultânea com a descoberta do país. Ele conhecia a escravidão, cultiva-a, e praticava-a como um sistema político. A escravidão era praticada na própria África. Os próprios africanos transplantaram-na para a América". Neste discurso, a responsabilidade pela escravidão é transferida para os negros, livrando nossas elites de qualquer responsabilidade ou prática racista e preconceituosa contra os povos que denominavam de mouros. Aqui já se evidencia que para que o processo educacional alcance os objetivos das Diretrizes Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, é fundamental que o sistema de ensino tenha discernimento, quanto à importância de se coibir a dissipação de teorias que deturpam a realidade e negam aos afrodescendentes qualquer direito de reivindicação por reparações, sendo, importantíssima a construção de uma identidade nacional pautada na coexistência de diferentes culturas que propiciem o Relacionamento Étnico-Racial e Intercultural sem desníveis ou lacunas que ultrapassem o campo ideológico.
Em razão da Educação para as Relações Étnico-Raciais, Inocêncio da Silva (2001) celebra a diferença afirmando que o reconhecimento da importância de uma educação pluricultural, pluriracial e não-eurocênctrica constitui-se em um dos pilares de uma sociedade brasileira verdadeiramente democrática.
De acordo com Trevisan (1988) toda sociedade que está marcada por desigualdades muito visíveis, mantidas por certa violência, precisa sempre escolher alguém- individualizado ou em grupo- como inimigo, a quem se deve ofender quando possível, a quem deve temer quando inferiorizado, e a quem se deve humilhar sempre, principalmente utilizando a marca do plural. É, justamente, em contraposição a esse comportamento ideológico-social que, a partir das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais (2004), se entende que para promover a reeducação das relações étnico-raciais, no Brasil, é necessário fazer emergir as dores e medos que têm sido gerados. É preciso entender que o sucesso de uns tem o preço da marginalização e da desigualdade imposta a outros e, então, decidir que sociedade queremos construir. Assim sendo, ainda pelas Diretrizes (2004) a educação das relações étnico-raciais impõe aprendizagens entre brancos e negros, trocas de conhecimentos, quebra de desconfianças, projeto conjunto para construção de uma sociedade justa, igual e equânime.
Pedagogias de combate ao racismo e a discriminações devem ser elaboradas com o objetivo de fortalecer entre os negros e despertar entre os brancos a consciência negra. Para Borges (2002) a própria noção de identidade de uma cultura se dá por meio da consciência de suas diferenças em relação às outras culturas, sem que, para tanto, se criem juízos de valor que desqualifique uma em detrimento de outra .
As afirmações de Oliveira (2003) confirmam que tem sido difícil introduzir o tema afro na esfera das políticas públicas e jurídicas. Foi necessário que se abrissem espaços de discussão contra impérios conceituais que apagam nossas realidades com as concepções de que todos somos mestiços e, portanto, somos iguais, concluindo assim que vivemos em uma democracia racial, nada mais conveniente quando se pretende manter um padrão de hierarquização social e racial orientado na acentuação da pejoratividade das diferenças. Para alterar os paradigmas construídos por tais impérios conceituais, Oliveira (2003) defende a idéia de que precisamos garantir a vez e a voz dos marginalizados da cultura dominante, aprendendo a compreender a diferença e a diversidade como fator de acréscimo e não de exclusão. Portanto, se a escola se pretende democrática, não deve homogeneizar saberes e crenças, muito menos impor um padrão cultural sem tentar perceber nuances culturais e étnicos de todos os participantes do processo educacional.
Fontes Bibliográficas
•BORGES, Edson, et al..Racismo, preconceito e intolerância.. São Paulo: Atual, 2002;
•CHAIB, Lídia. Ogum, o rei de muitas faces e outras histórias dos orixás.São Paulo: Cia das Letras, 2000;
•CHIAVENATO, José Júlio. O negro no Brasil: da senzala à abolição. São Paulo: Moderna, 1999;
•DEL PRIORE, Mary e VENÂNCIO, Renato Pinto (org.). Ancestrais: uma introdução à História da África Atlântica;
•GENOVESE, Eugene Dominick. Da Rebelião à Revolução: as revoltas de escravos negros nas Américas.São Paulo: Global, 1983;
•INOCÊNCIO da SILVA, Nelson Fernando. Consciência negra em cartaz. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001;
•KENSKI, Rafael. Vencendo na Raça. In: Revista Superinteressante, edição 187, p. 42-50. São Paulo: Abril, 2003;
•MARQUES, Adhemar, et al.. História do Tempo Presente. São Paulo: Contexto, 2003;
•MEC/SEPPIR. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Racias e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília: Seppir/MEC, 2004;
•MJ/SEDH/DPDH. Discriminação- crimes por raça e cor. Brasília: MJ, 2001;
•NEVES, MARIA DE Fátima Rodrigues das (org.). documentos sobre a escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2006;
•OLIVEIRA,Iolanda (org.). Relações raciais e educação: novos desafios. Rio de Janeiro: DP&A, 2003;
•SENADO FEDERAL(Sebastião Rocha). Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: SEEP,2000;
•TREVISAN, Leonardo. Abolição: um suave jogo político. São Paulo: Moderna, 1988.
Aguardo comentário do texto (proposta de estudo-aula do dia 27/04)
ResponderExcluirSintam-se abraçados.
Deborah
Realmente precisamos rever e quebrar paradigmas acerca dos conceitos aprendidos até hj. Entender nossa constituição desprendida de conceitos que nos colocam em "caixas" classificadas em superior e inferior, nos deixará mais próximos de uma real democracia, que reconhece e valoriza as diferenças, nos direcionando à uma sociedade de inclusão.
ResponderExcluirComentario:
ResponderExcluirRealmente, o texto descreve muito bem o processo que originou essa divisão social e econômica pelo mundo, originando o descriminação constante aos negros, índios, judeus, mouros, entres outros. Muito frustrante saber e conviver com absurdas descriminações no atual mundo globalizado que nos encontramos. E diante dos estudos e investigações dos vários historiadores relacionados no texto, especificam e esclarecem muito bem este processo de descriminação ao logo do processo histórico da humanidade.
Revoltante a forma generalizada de como é propagado e praticado o racismo no Brasil.Um dos piores tipos de racismo do mundo é o praticado no Brasil, isso é frustrante ao extremo. "A forma mais eficiente de reforçar o preconceito é achar que ele não existe, que é natural" (KENSKI, 2003 p.49)". Tal frase expressa a realidade do racismo no Brasil e sem duvidas proporciona a veracidade de como o racismo aqui é classificado como um dos piores. O fator de saber que é errado, injusto e mesmo assim visto com olhos de normal, natural, é inaceitável. Fica aqui a minha revolta quanto a estas praticas de racismo, assim como um pouco do conhecimento adquirido com a leitura do texto comentado.
Abraços!
Saint Clair 03/05/11
O papel da educação é essencialmente valorizar a identidade racial dos alunos afrodescendentes, a partir da valorização dele próprio, valorização essa entendida de dentro para fora, como também evidenciar o processo civilizatório do africano, sua cultura, costumes e características determinantes de povo.
ResponderExcluirVera Lúcia
Infelizmente ou felizmente ainda precisamos das leis que nos obrigue a tomar o conhecimento das cultulras raciais, mas é sim através da educação que vamos ter o 'conceito' das culturas deixando os "preconceitos".
ResponderExcluirEducação mostrar as culturas existentes com consciência de suas diferenças, mostrar a cada um que podemos aprender com as diferenças e não titular como forte ou fraco. Acabar com o preconceito de que um é melhor do que o outro e que são ambos para fazer uma sociedade mais justa, verdadeira. O Brasil é um país rico em culturas diferentes, costumes e crenças, e com isso a nossa etnia é mestiça.
ResponderExcluirSe o papel da escola é formar opiniões, temos que compreender que o processo é muito mais de natureza conceitual que perceptual, é de mudança de atitudes a começar por quem está a frente, requer um trabalho de políticas públicas articuladas a Educação para que as práticas conscientes possam ultrapassar muros de qualquer
ResponderExcluirinstituição. Sem esta parceria muito pouco vamos poder fazer para romper com a desigualdade e injustiça.
Domingas
“Portanto, se a escola se pretende democrática, não deve homogeneizar saberes e crenças, muito menos impor um padrão cultural sem tentar perceber nuances culturais e étnicos de todos os participantes do processo educacional.”
ResponderExcluirA educação constitui-se um dos principais ativos e mecanismos de transformação de um povo e é papel da escola, de forma democrática e comprometida com a
promoção do ser humano na sua integralidade, estimular a formação de valores, hábitos
e comportamentos que respeitem as diferenças e as características próprias de grupos
e minorias. Assim, a educação é essencial no processo de formação de qualquer sociedade e abre caminhos para a ampliação da cidadania de um povo.
Nesse sentido, cabe a escola estimular intervenções individuais e coletivas contra atitudes preconceituosas. Assim sendo, a escola formará uma sociedade compreensiva a diversidade étnico-racial e respeitosa.
Um abraço,
Leonice Romilda Carregari
Todos vocês pontuaram as atitudes necessárias frente ao processo de mudança de mentalidade. Fico pensando apenas se estamos deixando o outro ser o autor de sua história.
ResponderExcluirNós educadores, estamos com o desafio da ruptura e juntamente com o romper vem os conflitos que por hora nos fazem refletir a história de pequenos ditadores do saber.
Nossa alma ainda está lotada de desmemória, mas ainda assim alguns insistem em disciplinar o que essencialmente é livre.
Rosseau, com certeza deve estar pulando no caixão...rsss
Sintam-se abraçadas
Deborah
A discriminação no Brasil ainda é forte e presente, não só com os negros, mas sim com todas as pessoas que fogem a regra social vigente no mundo contemporaneo,são marginalizadas e responsabilizadas pelas mazelas da atualidade. Pelo texto lido até a escravidão mudou de culpados, os negros passaram a ser os culpados pela propria escravidão por já a cultuarem em sua terra natal. Precisamos oportunizar aos nossos alunos uma educação igualitaria, que não diferencie ninguem pelo tom da cor da pele, pelo seu poder economico e ampliar essa mudança para uma interação com a familia e comunidade, pois se o aluno chega na escola pensando de uma forma racista ela já tem um pré-conceito formado dentro de seu lar.
ResponderExcluirAcredito que não só a cultura afrodescendente deva ser incluída no currículo escolar como também a cultura indígena.
ResponderExcluirA mentalidade racista deve ser modificada, mas com seriedade, não criando cotas para alguns negros ou pobres para que possam ter acesso a Educação, mas que tenha igualdade, pois somos uma sociedade única.
Desta forma a Educação tem um papel importante e difícil de construir uma perspectiva de melhoria para os brasileiros marginalizados, conquistarem um lugar ao sol, porém diante do mar.
O papel da educação é acabar com a crença da sociedade em raças; porque os brasileiros acreditam nessa divisão: índios, negros e brancos.
ResponderExcluirSó com uma mudança interna e individual acreditamos ser um passo para acabar com a existência do racismo; ficar esperando sempre de uma esfera maior não é suficiente para que haja uma mudança de mentalidade sobre essa divisão. A democratização terá um valor real a partir do momento que todos os cidadãos forem tratados igualmente. E isso não é só com relação as raças; pobres também sofrem preconceitos e divisões.
Beatriz Bodo e Rosamaria Baro